Estamos todos cansados
Estamos todos cansados.
Por todo o lado, hรก apatia.
O que aconteceu com as pessoas?
A alegria parece cada vez mais fรกtua, cada vez menos capaz de cobrir o que nos acinzenta.
Olho para quem estรก ร volta, na rua, no supermercado, no autocarro.
Todos enclausurados, olhos perdidos em lado nenhum, autรณmatos de uma qualquer mรฃo que nos domina.
Como chegรกmos a este ponto?
Cada vez hรก menos alegria colectiva. Estamos derrotados, talvez pelas obrigaรงรตes, talvez pelas contas, talvez pelo medo.
ร importante resgatar a felicidade primรกria, a inconsequente.
ร urgente resgatar a crianรงa que nรฃo passa, olhar para o mundo como um imenso berlinde.
Precisamos todos de mais leveza, de menos peso sobre a passagem dos dias.
O tempo passa, leva-nos com ele. O que nos resta รฉ fazer dele barro, nรฃo pedra.
Quantos abraรงos deste hoje?
Quanto carinho tiveste hoje?
Quem ajudaste hoje?
Quem te ajudou hoje?
Jรก te ajudaste hoje?
Nunca sabemos quando serรก a รบltima oportunidade, o รบltimo beijo. Vivemos enganados.
Acreditamos que a vida รฉ um direito, quando devรญamos saber que ela รฉ um privilรฉgio.
Estamos todos cansados.
Compramos felicidade aldrabada, ao pacote: uma viagem, uma visita a um parque de diversรตes, um almoรงo de luxo.
Queremos cobrir de coisas por fora as coisas que nos faltam por dentro.
Nรฃo sei se o amor se aprende, mas bem que podรญamos tentar. Abram-se escolas de amor, encham-se pelo menos as escolas com amor.
Menos notas de 0 a 20, mais abraรงos a mais de vinte.
Menos competiรงรฃo, mais partilha.
Menos frieza, mais compaixรฃo. Sem medo das lรกgrimas, sem medo de regressar ao comeรงo de nรณs.
Levem lรก humoristas, artistas, palhaรงos, marionetistas, actores, senhores e senhoras de todas as รกreas, de todas as espรฉcies.
Encham as escolas de vida, encham a vida de vida.
Ensine-se o amor. ร assim que se ensina a vida. ร assim que se salva a vida.
Pedro Chagas Freitas
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